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segunda-feira, 1 de junho de 2015

AJOELHADO, OLHOS FECHADOS: ADIANTA?


Desde a infância aprendi que oração se faz com os olhos fechados. Meus pais cobravam isso, e essa exigência aguçava a minha curiosidade de garoto. Claro que durante a oração que se fazia em casa (naquele tempo, em redor da mesa, pela manhã, após o café, pai, mãe e filhos estudávamos a parcela da lição para a Escola Bíblica Dominical e orávamos) muitas vezes eu era apanhado com os olhos abertos. Minha mãe me repreendia - com os olhos, evidentemente abertos – mas, eram somente para me repreender; fechava-os em seguida. Na igreja era a mesma coisa.
Reparo que muita gente atribui aos olhos fechados uma condição sem a qual não se pode orar. Para elas, orar é fechar os olhos, necessariamente. É até interessante quando algum telepregador recomenda, no vídeo, que o espectador “feche os olhos”! Mas, se estamos assistindo ao que ocorre na tela, o fechar os olhos parece algo incoerente. Eu sei o que você está pensando sobre isso e tem uma resposta na ponta da língua. Mas, calma, sigamos!
Não estou propondo uma manifestação contrária aos olhos fechados, para orar. Creio que devemos fazer isso. O que pretendo é dessacralizar o ato. Quero mostrar que olhos fechados não acrescentam, necessariamente, valor à oração. Olhos abertos não depreciam a oração.
A Bíblia recomenda a constância na oração, o que mostra que um cristão deve viver em “estado de oração”; mas não pode viver em “estado de olhos fechados”. O apóstolo Paulo recomenda oração ininterrupta: “Orai sem cessar” (1Ts 5. 17). Ele declara a sua própria constância em oração: “... Orando abundantemente, dia e noite, para que possamos ver o vosso rosto e supramos o que falta à vossa fé?” (1Ts 3.10). Acrescenta o apóstolo: “Quero, pois, que os homens orem em todo o lugar...” (1Tm 2.8).
Por que, então, fechar olhos, se esse ato não confere maior poder à oração? Não confere maior poder, mas tem uma finalidade: aquela que, em garoto, não me foi esclarecida, e ficou como se fosse parte de um ritual.  Entenda-se que os olhos fechados inibem a desatenção ao ato de orar, a vista do que nos rodeia pode provocar distração. Por isso, geralmente, eu disse geralmente, fechamos os olhos, a fim de nos isolarmos das circunstâncias que nos envolvem. Entretanto, a prudência diz que, seguramente, provocaremos sérios riscos, se fizermos oração com olhos fechados, enquanto dirigimos um veículo, ou trabalhamos em uma máquina, ou nos defrontamos com um perigo.
Por outro lado, a desatenção pode ocorrer, ainda que se fechem os olhos. Voltando à minha meninice: eu fechava os olhos durante a oração, por imposição de um ritual vazio, mas a minha mente vagueava bem longe daquele ato. Isso é notório, mesmo na igreja: quando se faz a oração, impera o hábito de um ritual impensado; “ora-se” como um autômato. Tal “oração”, ainda que feita com os olhos fechados (por causa do hábito), nada vale. Não estranhe que eu aponte o mesmo problema com o ajoelhar-se.
Também era praxe, na infância, que se cobrasse às crianças, o orar ajoelhado. Quantas vezes eu adormeci naquela posição. Era criança, nada sabia; mal cumpria um, ritual desnecessário. As pessoas crescem carregando rituais totalmente dispensáveis. Claro que o ajoelhar-se para orar é necessário como ato consciente de humildade e pequenez diante do Senhor; mas não acrescenta, senão isso, ao ato da oração. Não constitui um ritual. Se se vive em estado de oração, ora-se onde quer que se esteja, ou como se esteja!
Os que se prendem a rituais cumprem penitências: sobem escadarias ajoelhados, andam em romaria, a pé, por muitos quilômetros, entre outros sacrifícios vãos. Cristo nos libertou dessas coisas, abandonemo-las, pois!
Retomando os ensinos de Paulo, constatamos: “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis o vosso corpo em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm 12. 1-2).
Que é apresentar o corpo “como sacrifício vivo”? O que está morto não tem consciência do que faz; é passivo, ainda que seja sacrifício. O morto pode fazer parte de um ritual; mas não age. O sacrifício vivo a que Paulo se refere é um culto oferecido conscientemente, com finalidade, com propósito, com decisão. Por que santo? Porque é conscientemente separado para Deus, dedicado exclusivamente ao Senhor. Isso é agradável a Deus. Isso é o culto racional: prestado com a razão, com o entendimento.
Olhos fechados, sim. Mas com propósito definido. Joelhos (e muitas vezes o rosto) no chão, sim. Mas com propósito definido. Assim deve ser considerada toda atividade de culto ao Senhor; seja oração, sejam leitura e estudo da Escritura Sagrada, sejam os cânticos (cujas letras precisam ser bem observadas e revistas, para a eliminação do que não é racional; porque não é santo, nem agradável a Deus).
Ev. Izaldil Tavares de Castro.

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