“E
ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para
evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos
santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo, até que
todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão
perfeito, à medida da estatura completa de Cristo.” (Ef 4. 11-13 destaque meu).
Introdução
Parece-me
que a citação apressada desse fragmento do texto paulino, aos crentes em Éfeso
e a nós também, não permite, a muitos, perceber a natureza coletiva dos
destinatários. A quem o Senhor deu obreiros? À Igreja, para que se aplique a
instrução nas igrejas, até que ela cumpra toda a sua tarefa neste mundo. A
referência não serve para endosso à vaidade de homens sem escrúpulo.
O
próprio escritor da epístola, o apóstolo Paulo, inclui-se no grupo receptor da
instrução que transmitiu. Embora ele não tenha dito, nesse caso, subjaz a
famosa frase dele, na instrução sobre a Ceia do Senhor: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei...” (1Co 11.
23a). Nos versículos 13 a 15, Paulo usa a primeira pessoa do plural, o que nos
leva a entender a razão de ele ter escrito assim; havia, nele, a intenção de
deixar claro que o Senhor é Quem determina as escolhas para o funcionamento da
Igreja (nas igrejas). O Senhor Jesus é Quem escolhe os homens que trabalharão na
Sua seara. Nenhum homem edificou a Igreja; nada é do homem; tudo é do Senhor, e
todos somos, simplesmente, servos do Senhor. (Lc 17. 9-10).
1.
DESDE
O ANTIGO TESTAMENTO, DEUS USOU LÍDERES
O Senhor é Deus de
hierarquia. Na criação do mundo, narrada em Gênesis, a hierarquia perpassa todo
o relato da Criação, e, ao homem foi dada a capacidade para liderar. Se
perpassarmos as páginas do Pentateuco, encontraremos homens que ocuparam
posições de liderança, tanto no governo secular (os reis e administradores)
quanto no religioso (os sacerdotes e os profetas). Moisés, libertador de
Israel, foi orientado - da parte de Deus - por Jetro, seu sogro - aproximadamente
1500 anos, antes de Cristo - a dividir a carga do seu trabalho com homens de
confiança. Foi uma providência administrativa, desenvolvida pelo intelecto
humano, mas orientada pela vontade de Deus. A Bíblia registra outros casos de
aplicação hierárquica em todas as instâncias da vida humana: a humanidade não
pode ser um bando espalhado por sobre a Terra. Relativamente ao governo
religioso, o aspecto hierárquico difere do secular; isso significa que aquele
que governa não é maior do que o governado (Lc 22. 24-30). Moisés dirigia o
povo saído do Egito, mas Deus a ele se referia dizendo: “Meu servo Moisés” (Nm
12. 6; Js 1. 2). Os líderes que, no passado, Deus usou para os seus propósitos
deveriam ser referência para as lideranças atuais.
2.
CRISTO
JESUS: EXEMPLO DE LIDERANÇA SUBMISSA A DEUS
As lideranças
nas igrejas que atuam neste mundo têm de ter em Cristo Jesus o seu exemplo
máximo de comportamento. Não pode liderar, com lisura, a obra do Mestre um
homem que ama a soberba, que ama ser visto pelo povo como “um ser especial aos
olhos de Deus”. A Bíblia diz que “a
soberba precede a ruína e a altivez de espírito precede a queda.” (Pv 16. 18).
Os líderes precisam ser submissos ao Senhor, como Cristo Jesus foi submisso ao
Pai. Sendo Divino, Jesus não teve a intenção de vir ao mundo para mostrar quão
glorioso ele era; mas agiu como alguém menos que um servo; tornou-se humilde
como o mais desprezado dos escravos.
“...
e, olhando nós para ele, nenhuma beleza víamos para que o desejássemos. Era
desprezado e o mais indigno entre os homens, [...] era desprezado, e não
fizemos dele caso algum.” (Is
53. 2-3)
“De
sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que,
sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas
aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos
homens; e, achando-se na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo
obediente até à morte, e morte de cruz...” (Fp 2. 5-8)
É necessário que os líderes cristãos assumam “o mesmo
sentimento que houve também em Cristo Jesus.” O Senhor não deu líderes para
serem grandes mandatários na obra do Reino; ele deu líderes para trabalharem
pelo aperfeiçoamento da Igreja, nas igrejas.
3.
ADMINISTRAÇÕES
DISTINTAS; MAS ORIENTADAS PELO ESPÍRITO SANTO
Segundo
o teólogo, Rev. Claudemir Pedroso da Silva, no âmbito da Eclesiologia, podem
ser citados, entre outros, três modelos de administração eclesiástica: episcopal, presbiteriano e congregacional.
Não é meu propósito apontar qual seja o melhor sistema. Meu interesse é
verificar a condição bíblica e a lisura de qualquer liderança cristã, em
qualquer grau de hierarquia em sua denominação evangélica.
Pelo
modelo
episcopal, uma igreja é dirigida por hierarquia semelhante à da Igreja
Católica, em que há um organograma, a partir de um líder soberano: o Papa.
Entretanto, existem igrejas evangélicas, inclusive pentecostais, que adotaram
esse sistema que além de hierarquizar um clero, distribui poderes temporais a
um episcopado: há um bispo primaz (ou arcebispo), bispos setoriais, depois
pastores etc. O pentecostalismo tem evitado aprofundar, por questões do que é
“politicamente correto”, discutir esse sistema, com base nas Escrituras
Sagradas.
Pelo
sistema presbiteriano, a decisão dos
assuntos eclesiásticos, cabe aos presbíteros, neste caso, classe de homens
responsáveis pela “gerência” material da igreja. Ao pastor, contratado
profissionalmente, cabem apenas as funções pastorais, durante o período em que
estiver sob contrato.
O modelo congregacional, é o que, em
geral, pelo menos em tese, serve à igreja pentecostal, aqui, referida a
Assembleia de Deus. Por esse modelo administrativo sobressai a decisão dos
membros da igreja, em assembléia. O autor em questão denomina autogoverno.
Rigorosamente
falando, essas modalidades citadas visam, apenas, a provocar reflexões sobre as
formas de administração eclesiástica, com olhos voltados para a denominação
assembleiana. Isso posto, vale refletir sobre a escolha humana de obreiros
assembleianos e a questão do nepotismo, tão comentado a boca pequena alhures.
4.
QUANDO
O HOMEM SE TORNA SENHOR DA IGREJA
Ao
se ver como “dono” da obra, “senhor da igreja”, ainda que não fale isso, o
obreiro já perdeu a dignidade de bom líder cristão. A maioria desses maus
obreiros não se gaba publicamente disso, mas as suas ações os desnudam. Eu
disse que a maioria não se gaba, mas já vi quem se mostra tão arrogante que
declarou: “Quem manda em mim é o Senhor; mas quem manda na minha igreja sou
eu!” O resultado para esse tipo de liderança é o fracasso na conquista de almas
para o Reino e a evasão de membros que raciocinam.
Quando o Senhor Jesus envia mensagens
às igrejas que estavam na Ásia Menor, não enviou secretamente para elas. O
escritor do Apocalipse teve ordem do Senhor para publicá-las: “Escreve!”. Das
sete igrejas ali mencionadas, apenas duas não sofreram exortação para se
corrigirem. Leiam a dureza da mensagem a igreja em Sardes (cap. 3). Que
mensagens, além dessas o Senhor enviaria às igrejas do nosso tempo?
5.
A
FARSA DO MODELO CONGREGACIONAL NAS DECISÕES ECLESIÁSTICAS
Na
condição de pastor assembleiano, nascido e criado no meio desse povo de Deus,
sinto-me à vontade para expor o que penso sobre o nosso sistema
administrativo-espiritual. Dizemos ter adotado o sistema congregacional, ou
seja, aquele em que o poder de decisão está nas mãos dos membros que compõem
determinado ministério. Claro que há respaldo bíblico para a adoção desse
sistema administrativo, que nasceu em Jerusalém, como registra Atos 6. 2-6.
O
problema é a maneira como se faz essa administração, pois, muitos ministérios
“fingem” dar às suas assembléias esse direito. No relato de Atos, os apóstolos
reuniram o povo, expuseram a situação que obrigava a instituição do diaconato,
abordaram o papel que cabia aos apóstolos (“... mas nós perseveraremos na
oração e no ministério da palavra.”) e entregaram a escolha dos diáconos à
igreja! (vv. 5-6). Verdadeiramente, é assim que se faz, hoje, na maioria das
nossas igrejas? Claro que não! Aliás, a única função, cujo exercício permanece
dentro dos padrões bíblicos é a diaconal! Assim mesmo, desperta-se nos diáconos
a noção de eles ingressaram numa “carreira ministerial”; estão no “piso”, a fim
de ganharem uma promoção de que se orgulhem. Quando “sobem” acham-se,
gradativamente, acima dos que permanecem na função primeira. Apenas esta nota é
suficiente para se perceber que muitas das nossas igrejas confundem função
ministerial com cargo. O cargo só tem valor quando traz consigo o encargo; o
encargo determina a função.
6.
QUE
É NEPOTISMO
Enquanto
a Igreja está neste mundo, ela carece de homens que a liderem, segundo a
vontade do Senhor. Por isso a necessidade dessas escolhas que separam homens
para uma função na obra de Deus. Somente nesta esfera terrena a Igreja carece
da liderança descrita em Efésios 4. 11-13; a razão disso se registra nos
versículos 12 e 13: ela ainda caminha no processo de aperfeiçoamento; no Céu, a
Igreja aperfeiçoada terá outras funções.
O
nepotismo é uma grave distorção que sempre invadiu as lideranças no Reino de
Deus. No Antigo Testamento, Míriam e Arão reclamaram da própria função que
exerciam junto a Moisés. Ela era profetisa, poetisa e musicista (Êx 15.20).
Deus escolhera Arão para ser sacerdote junto ao líder Moisés, mas Míriam e Arão
pretendiam ocupar um “lugar mais destacado” junto ao povo de Israel. Talvez,
pensassem: Moisés poderia nos dar uma “forcinha”. Sofreram castigo de Deus.
A
palavra nepotismo deriva de uma palavra latina que significa neto, sobrinho, por extensão, familiar,
parente. Com o acréscimo do sufixo –ismo, nepotismo é a prática de se
beneficiar algum familiar com uma função pública que poderia exigir seleção por
concurso.
No
âmbito eclesiástico - ministerial ou administrativo - é a prática habitual
entre boa parte de pastores presidentes, os quais beneficiam filhos, parentes
ou agregados, dando-lhes funções ministeriais ou administrativas, geralmente
importantes no seio da igreja. Evidentemente, Deus, o Senhor da obra, pode
escolher a quem ele quiser para qualquer função na Igreja. A questão é que nem
sempre a escolha é de Deus. O nepotismo deve ser evitado, para não ser
combatido. A não ser por discernimento espiritual ou por voz verdadeiramente
profética, é temerário afirmar-se que a escolha não vem da parte de Deus.
Todavia, não parece adequado que haja em tão grande número de ministérios,
obreiros oriundos de obreiros presidentes, e quase nenhum obreiro oriundo do chamado
“baixo clero”.
Conclusão
As Escrituras nos provam que o Senhor Deus instituiu a
hierarquia e as funções, para que os homens vissem essas lições, a partir dos
exemplos perceptíveis na Criação: “E fez Deus os dois grandes luminares: o
luminar maior para governar o dia; e o luminar menor para governar a noite, e
fez as estrelas.” (Gn 1. 16). Deu também ao homem a noção de hierarquia e de
funções.
Mostrou-nos, em Cristo Jesus, o maior exemplo de
submissão à hierarquia divina, de cumprimento pleno, pela obediência, daquilo
que lhe estava proposto. Sendo ele Deus, não pretendeu ser igual a Deus; bem ao
contrário de Satanás que se propôs malignamente ser “igual a Deus”.
As igrejas, neste mundo adotam sistemas diferentes de
trabalhar pelo Reino do Senhor, mas elas devem se fiéis às Escrituras Sagradas
e submissas à direção do Espírito Santo. Sem esse poder, todas elas são
anunciadoras do falso evangelho. Não há homem algum que possa arrogar-se a
posição de “senhor da igreja” e eleger dentre os amigos quem serão os seus
pares no ministério eclesiástico. Por essa razão, a prática do nepotismo é
imoral, deve ser evitada, tal como se deve evitar qualquer pecado; o nepotismo
é tão pecaminoso quanto o autoritarismo. É a prática de uma gestão imoral,
camuflada na difícil identificação, a não ser por obra do Espírito Santo.
Assim,
para evitar murmuração no meio do povo, desestímulo dos que têm vocação ministerial
e tantos outros problemas nas igrejas, parece conveniente a precaução na
escolha de ministros consanguíneos, para cargos no mesmo ministério, na mesma
igreja, na mesma diretoria. O campo é vasto e faltam obreiros para a seara. A
prudência precisa ser uma das mais importantes qualidades de um ministro de
Deus.


Nenhum comentário:
Postar um comentário