terça-feira, 9 de janeiro de 2024

FUNÇÕES ECLESIÁSTICAS E NEPOTISMO

 



 

 

“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores, querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus, a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo.” (Ef 4. 11-13 destaque meu).

 

Introdução

Parece-me que a citação apressada desse fragmento do texto paulino, aos crentes em Éfeso e a nós também, não permite, a muitos, perceber a natureza coletiva dos destinatários. A quem o Senhor deu obreiros? À Igreja, para que se aplique a instrução nas igrejas, até que ela cumpra toda a sua tarefa neste mundo. A referência não serve para endosso à vaidade de homens sem escrúpulo.

O próprio escritor da epístola, o apóstolo Paulo, inclui-se no grupo receptor da instrução que transmitiu. Embora ele não tenha dito, nesse caso, subjaz a famosa frase dele, na instrução sobre a Ceia do Senhor: “Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei...” (1Co 11. 23a). Nos versículos 13 a 15, Paulo usa a primeira pessoa do plural, o que nos leva a entender a razão de ele ter escrito assim; havia, nele, a intenção de deixar claro que o Senhor é Quem determina as escolhas para o funcionamento da Igreja (nas igrejas). O Senhor Jesus é Quem escolhe os homens que trabalharão na Sua seara. Nenhum homem edificou a Igreja; nada é do homem; tudo é do Senhor, e todos somos, simplesmente, servos do Senhor. (Lc 17. 9-10).

 

 

 

1.    DESDE O ANTIGO TESTAMENTO, DEUS USOU LÍDERES

O Senhor é Deus de hierarquia. Na criação do mundo, narrada em Gênesis, a hierarquia perpassa todo o relato da Criação, e, ao homem foi dada a capacidade para liderar. Se perpassarmos as páginas do Pentateuco, encontraremos homens que ocuparam posições de liderança, tanto no governo secular (os reis e administradores) quanto no religioso (os sacerdotes e os profetas). Moisés, libertador de Israel, foi orientado - da parte de Deus - por Jetro, seu sogro - aproximadamente 1500 anos, antes de Cristo - a dividir a carga do seu trabalho com homens de confiança. Foi uma providência administrativa, desenvolvida pelo intelecto humano, mas orientada pela vontade de Deus. A Bíblia registra outros casos de aplicação hierárquica em todas as instâncias da vida humana: a humanidade não pode ser um bando espalhado por sobre a Terra. Relativamente ao governo religioso, o aspecto hierárquico difere do secular; isso significa que aquele que governa não é maior do que o governado (Lc 22. 24-30). Moisés dirigia o povo saído do Egito, mas Deus a ele se referia dizendo: “Meu servo Moisés” (Nm 12. 6; Js 1. 2). Os líderes que, no passado, Deus usou para os seus propósitos deveriam ser referência para as lideranças atuais.

 

2.    CRISTO JESUS: EXEMPLO DE LIDERANÇA SUBMISSA A DEUS

As lideranças nas igrejas que atuam neste mundo têm de ter em Cristo Jesus o seu exemplo máximo de comportamento. Não pode liderar, com lisura, a obra do Mestre um homem que ama a soberba, que ama ser visto pelo povo como “um ser especial aos olhos de Deus”.  A Bíblia diz que “a soberba precede a ruína e a altivez de espírito precede a queda.” (Pv 16. 18). Os líderes precisam ser submissos ao Senhor, como Cristo Jesus foi submisso ao Pai. Sendo Divino, Jesus não teve a intenção de vir ao mundo para mostrar quão glorioso ele era; mas agiu como alguém menos que um servo; tornou-se humilde como o mais desprezado dos escravos.

 

“... e, olhando nós para ele, nenhuma beleza víamos para que o desejássemos. Era desprezado e o mais indigno entre os homens, [...] era desprezado, e não fizemos dele caso algum.” (Is 53. 2-3)

 

“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achando-se na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz...” (Fp 2. 5-8)

 

            É necessário que os líderes cristãos assumam “o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.” O Senhor não deu líderes para serem grandes mandatários na obra do Reino; ele deu líderes para trabalharem pelo aperfeiçoamento da Igreja, nas igrejas.

 

3.    ADMINISTRAÇÕES DISTINTAS; MAS ORIENTADAS PELO ESPÍRITO SANTO

Segundo o teólogo, Rev. Claudemir Pedroso da Silva, no âmbito da Eclesiologia, podem ser citados, entre outros, três modelos de administração eclesiástica: episcopal, presbiteriano e congregacional. Não é meu propósito apontar qual seja o melhor sistema. Meu interesse é verificar a condição bíblica e a lisura de qualquer liderança cristã, em qualquer grau de hierarquia em sua denominação evangélica.

Pelo modelo episcopal, uma igreja é dirigida por hierarquia semelhante à da Igreja Católica, em que há um organograma, a partir de um líder soberano: o Papa. Entretanto, existem igrejas evangélicas, inclusive pentecostais, que adotaram esse sistema que além de hierarquizar um clero, distribui poderes temporais a um episcopado: há um bispo primaz (ou arcebispo), bispos setoriais, depois pastores etc. O pentecostalismo tem evitado aprofundar, por questões do que é “politicamente correto”, discutir esse sistema, com base nas Escrituras Sagradas.

Pelo sistema presbiteriano, a decisão dos assuntos eclesiásticos, cabe aos presbíteros, neste caso, classe de homens responsáveis pela “gerência” material da igreja. Ao pastor, contratado profissionalmente, cabem apenas as funções pastorais, durante o período em que estiver sob contrato.

O modelo congregacional, é o que, em geral, pelo menos em tese, serve à igreja pentecostal, aqui, referida a Assembleia de Deus. Por esse modelo administrativo sobressai a decisão dos membros da igreja, em assembléia. O autor em questão denomina autogoverno.

Rigorosamente falando, essas modalidades citadas visam, apenas, a provocar reflexões sobre as formas de administração eclesiástica, com olhos voltados para a denominação assembleiana. Isso posto, vale refletir sobre a escolha humana de obreiros assembleianos e a questão do nepotismo, tão comentado a boca pequena alhures.

 

4.    QUANDO O HOMEM SE TORNA SENHOR DA IGREJA

Ao se ver como “dono” da obra, “senhor da igreja”, ainda que não fale isso, o obreiro já perdeu a dignidade de bom líder cristão. A maioria desses maus obreiros não se gaba publicamente disso, mas as suas ações os desnudam. Eu disse que a maioria não se gaba, mas já vi quem se mostra tão arrogante que declarou: “Quem manda em mim é o Senhor; mas quem manda na minha igreja sou eu!” O resultado para esse tipo de liderança é o fracasso na conquista de almas para o Reino e a evasão de membros que raciocinam.  

         Quando o Senhor Jesus envia mensagens às igrejas que estavam na Ásia Menor, não enviou secretamente para elas. O escritor do Apocalipse teve ordem do Senhor para publicá-las: “Escreve!”. Das sete igrejas ali mencionadas, apenas duas não sofreram exortação para se corrigirem. Leiam a dureza da mensagem a igreja em Sardes (cap. 3). Que mensagens, além dessas o Senhor enviaria às igrejas do nosso tempo?

 

 

5.    A FARSA DO MODELO CONGREGACIONAL NAS DECISÕES ECLESIÁSTICAS

Na condição de pastor assembleiano, nascido e criado no meio desse povo de Deus, sinto-me à vontade para expor o que penso sobre o nosso sistema administrativo-espiritual. Dizemos ter adotado o sistema congregacional, ou seja, aquele em que o poder de decisão está nas mãos dos membros que compõem determinado ministério. Claro que há respaldo bíblico para a adoção desse sistema administrativo, que nasceu em Jerusalém, como registra Atos 6. 2-6.

O problema é a maneira como se faz essa administração, pois, muitos ministérios “fingem” dar às suas assembléias esse direito. No relato de Atos, os apóstolos reuniram o povo, expuseram a situação que obrigava a instituição do diaconato, abordaram o papel que cabia aos apóstolos (“... mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra.”) e entregaram a escolha dos diáconos à igreja! (vv. 5-6). Verdadeiramente, é assim que se faz, hoje, na maioria das nossas igrejas? Claro que não! Aliás, a única função, cujo exercício permanece dentro dos padrões bíblicos é a diaconal! Assim mesmo, desperta-se nos diáconos a noção de eles ingressaram numa “carreira ministerial”; estão no “piso”, a fim de ganharem uma promoção de que se orgulhem. Quando “sobem” acham-se, gradativamente, acima dos que permanecem na função primeira. Apenas esta nota é suficiente para se perceber que muitas das nossas igrejas confundem função ministerial com cargo. O cargo só tem valor quando traz consigo o encargo; o encargo determina a função.

 

6.    QUE É NEPOTISMO

Enquanto a Igreja está neste mundo, ela carece de homens que a liderem, segundo a vontade do Senhor. Por isso a necessidade dessas escolhas que separam homens para uma função na obra de Deus. Somente nesta esfera terrena a Igreja carece da liderança descrita em Efésios 4. 11-13; a razão disso se registra nos versículos 12 e 13: ela ainda caminha no processo de aperfeiçoamento; no Céu, a Igreja aperfeiçoada terá outras funções.

O nepotismo é uma grave distorção que sempre invadiu as lideranças no Reino de Deus. No Antigo Testamento, Míriam e Arão reclamaram da própria função que exerciam junto a Moisés. Ela era profetisa, poetisa e musicista (Êx 15.20). Deus escolhera Arão para ser sacerdote junto ao líder Moisés, mas Míriam e Arão pretendiam ocupar um “lugar mais destacado” junto ao povo de Israel. Talvez, pensassem: Moisés poderia nos dar uma “forcinha”. Sofreram castigo de Deus.

A palavra nepotismo deriva de uma palavra latina que significa neto, sobrinho, por extensão, familiar, parente. Com o acréscimo do sufixo –ismo, nepotismo é a prática de se beneficiar algum familiar com uma função pública que poderia exigir seleção por concurso.

No âmbito eclesiástico - ministerial ou administrativo - é a prática habitual entre boa parte de pastores presidentes, os quais beneficiam filhos, parentes ou agregados, dando-lhes funções ministeriais ou administrativas, geralmente importantes no seio da igreja. Evidentemente, Deus, o Senhor da obra, pode escolher a quem ele quiser para qualquer função na Igreja. A questão é que nem sempre a escolha é de Deus. O nepotismo deve ser evitado, para não ser combatido. A não ser por discernimento espiritual ou por voz verdadeiramente profética, é temerário afirmar-se que a escolha não vem da parte de Deus. Todavia, não parece adequado que haja em tão grande número de ministérios, obreiros oriundos de obreiros presidentes, e quase nenhum obreiro oriundo do chamado “baixo clero”.

 

 

Conclusão

            As Escrituras nos provam que o Senhor Deus instituiu a hierarquia e as funções, para que os homens vissem essas lições, a partir dos exemplos perceptíveis na Criação: “E fez Deus os dois grandes luminares: o luminar maior para governar o dia; e o luminar menor para governar a noite, e fez as estrelas.” (Gn 1. 16). Deu também ao homem a noção de hierarquia e de funções.

            Mostrou-nos, em Cristo Jesus, o maior exemplo de submissão à hierarquia divina, de cumprimento pleno, pela obediência, daquilo que lhe estava proposto. Sendo ele Deus, não pretendeu ser igual a Deus; bem ao contrário de Satanás que se propôs malignamente ser “igual a Deus”.

            As igrejas, neste mundo adotam sistemas diferentes de trabalhar pelo Reino do Senhor, mas elas devem se fiéis às Escrituras Sagradas e submissas à direção do Espírito Santo. Sem esse poder, todas elas são anunciadoras do falso evangelho. Não há homem algum que possa arrogar-se a posição de “senhor da igreja” e eleger dentre os amigos quem serão os seus pares no ministério eclesiástico. Por essa razão, a prática do nepotismo é imoral, deve ser evitada, tal como se deve evitar qualquer pecado; o nepotismo é tão pecaminoso quanto o autoritarismo. É a prática de uma gestão imoral, camuflada na difícil identificação, a não ser por obra do Espírito Santo.  

Assim, para evitar murmuração no meio do povo, desestímulo dos que têm vocação ministerial e tantos outros problemas nas igrejas, parece conveniente a precaução na escolha de ministros consanguíneos, para cargos no mesmo ministério, na mesma igreja, na mesma diretoria. O campo é vasto e faltam obreiros para a seara. A prudência precisa ser uma das mais importantes qualidades de um ministro de Deus.

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