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quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O HOMEM E A DICOTOMIA DA EXISTÊNCIA



Um dos grandes problemas do homem, talvez o maior deles, é exatamente aquilo que o caracteriza como ser inteligente, homo sapiens: a expressão de si mesmo e das circunstâncias que o envolvem. A impressão infalivelmente subjuga a expressão, enquanto essa empobrece aquela.

A percepção da vida - envolvendo todo o seu mistério: o eu, o outro, o universo – é, para cada um, tão diversa quanto são as digitais. Essa diversidade de percepção é - em nós mesmos e ao mesmo tempo - maravilhosamente bela como um calidoscópio e terrivelmente desconcertante para quem, por natureza, ama e persegue a igualdade. O problema é viver e expressar essa dicotomia. Imagine-se, agora, todo esse estado de alma também distinto, no tempo e no espaço, em cada indivíduo.

Viver a dicotomia pessoal é saber o momento de convencer-se de que há beleza, portanto, coerência, em todo o objeto que se submete à apreciação; ou o momento de convencer-se de um decepcionante confronto do particular e inalienável interesse. Em que instante é bela a flor? No jardim bem cuidado que se vê da sacada da mansão, provavelmente. Em que instante a flor se reveste de feiura insuportável? Na coroa que simboliza a saudade daquele que partiu, provavelmente. Mas, o objeto não se altera: a flor, em si, não é alegre, nem triste: é flor. Nossa dicotomia atribui-lhe valores.

Diante desses percalços, que pode fazer o homem para vencer a batalha das cosmovisões que se lhe apresentam? É necessário não ser como a palha que o vento leva, há que ter firmeza dentro de suas próprias dicotomias. É necessário identificar o momento adequado para abandonar essa possibilidade dual por um instante, e assegurar-se de estar em coerência com a ideia que pretende por em xeque. Que é, pois, ideia? Digamos que não haja ideia, mas ideias. Consideremos que elas sejam a capacidade que têm os indivíduos de materializar uma abstração. Porém, uma ideia pode ser o bojo tanto do aproveitável quanto do descartável. O descartável instala-se na área do palpite, mantém-se como opinião, é o lixo cerebral. A ideia será aproveitável quando julgada à luz da argumentação.

Não há ideia funcional sem maturidade, sem respaldo lógico, sem apoio que a justifique, sem que tenha agido a razão. Sem isso, é ideia descartável: é palpite, opinião, lixo cerebral, ajuntado do ouvir dizer. Quem sustenta as ideias são os argumentos provados e tidos como tais. O “falso argumento” chama-se falácia e só serve para justificar sua própria insuficiência.

Ora, a quase irremediável e crucial dificuldade do homem: a expressão exitosa de sua mundividência esbarra na difícil escolha da maneira como tecerá os dados que deverão convencer o seu semelhante da verdade que lhe nasceu de um campo dicotômico, do qual ele foi capaz priorizar uma dada percepção. Dessa percepção selecionada veio-lhe a ideia, por fim, submetida às possibilidades de uma argumentação segura, capaz de garantir-lhe a vitória sobre as circunstâncias que guerreiam em situação oposta.
Izaldil Tavares de Castro

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