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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

LEITURA INTELIGENTE



Diz o romancista, comediógrafo, crítico literário espanhol, Azorin, (pseudônimo de José Martinez Ruiz. 1874-1969), em sua obra crítica "El Escritor":

“Não se medita no mundo moderno. Há muito poucos homens que se prazem na meditação; sem a meditação não pode haver sólida obra de arte; tudo o que na arte se faça sem meditação será coisa de primeiro plano; faltará a perspectiva espiritual, essa segunda realidade que, por sua vez, faz meditar o leitor de um livro ou o contemplador de um quadro”.

Com base nessa análise, vem-me à mente a escrituração da Bíblia Sagrada.

A Bíblia Sagrada é o conjunto dos livros canônicos, nos quais Deus se revela - aos homens - a Si mesmo e os seus propósitos já realizados e a se realizarem. Foi escrita no decorrer de 1500 anos, por pelo menos 36 homens. Diz Orlando Boyer: “Contudo esses livros perfazem um só livro, porque são a obra de um só Autor, sobre um alvo e propósito divino: a redenção dos homens”. (Pequena Enciclopédia Bíblica. 8ª Ed. 1985).

Deus possibilitou aos homens a criação e o uso de registros gráficos que representem aos olhos de outrem suas impressões do mundo que os cerca, suas conjeturas, seus estados de alma e suas meditações. Grosso modo, chamarei a isso Literatura.

Para produzir sua “literatura”, isto é, os textos escritos, o homem aplica a sua capacidade de meditar, conforme registrou Azorin. Aquilo que se escreve sem meditação além de não produzir um possível efeito desejado, representa algo vão. A meditação é prioridade na produção escrita séria.

É comum explicar-se que os autores sagrados escreveram inspirados pelo Espírito Santo, o que é indiscutível. A unidade da Bíblia comprova esse fato: a distância temporal e geográfica entre Moisés e Paulo, por exemplo, não tornam seus escritos discrepantes, nem contraditórios, nem isolados; porque toda a confecção da obra é guiada pelo Espírito Santo, o qual é atemporal.

Todavia, Deus não selecionou alguns “homens-fantoches” como autores dos textos sagrados. Todos escreveram sob meditação e análise. Bíblia não é psicografia!

A Bíblia registra História, biografias, profecia, poesia, doutrina que não foram proferidos inconsequente nem irresponsavelmente por homens fanáticos, sob forte emoção.  Todos eles meditaram, analisaram, compararam para escrever. Deus usou a capacidade intelectual (maior ou menor) de cada escritor sagrado. Diz o apóstolo Paulo: “porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei...” (I Co 11.23). Se recebeu do Senhor, foi instruído para transmitir com raciocínio e eficiência comunicativa: “o que também vos ensinei”.

Os escritores sagrados escreveram suas páginas conforme o que registra o profeta Isaías: “Disse-me também o Senhor: “Toma uma ardósia grande e escreve nela de maneira inteligível:...” (Is 8.1. Bíblia de Estudo de Genebra). Escreveram de maneira inteligível, pensada.

Lucas deixa clara a tarefa da pesquisa para escrever o seu evangelho apresentado a Teófilo.

A Bíblia é uma obra racional em todos os seus aspectos. Deus é racional e deu racionalidade aos homens, para que a usem.

Baseado ainda em Azorin, não concebo que as Escrituras Sagradas estariam abaixo da concepção daquele literato. Prefiro entender que elas esclarecem aquele pensamento.

Ora, se não há escritura séria que se produza sem meditação, também ficou claro que não há fruição da escritura sem essa prática: a meditação do escritor induz o leitor à sua própria meditação. O que observa um quadro medita sobre a sua composição, senão, nada verá exceto um conjunto de cores que nada lhe dizem.

Preocupa-me sobremodo que as pessoas são instigadas à leitura da Bíblia, sem que haja instrução sobre o que é ler a Bíblia. Fica muito simples dizer a alguém: leia, que o Espírito Santo lhe esclarecerá. Claro que o Espírito Santo esclarecerá àquele que não teve possibilidade de ser levado à meditação. Mas, acredito que haverá profunda falha naqueles que, podendo esclarecer sobre a maneira correta de leitura bíblica, simplesmente não o fazem.

Quando o Senhor Jesus proferiu a sua ordem à igreja, intimando-a a pregar o evangelho disse: “Ide, ensinai [...] ensinando-as...” (Mt 28.19-20). É necessário que haja ensinadores da Palavra de Deus. Evangelizar é ensinar. Há necessidade de mestres! “Porque, devendo já ser mestres pelo tempo, ainda necessitais de que se vos torne a ensinar quais sejam os rudimentos das palavras de Deus;...” (Hb 5.12).

É preciso que a igreja deixe de agir como a mãe desinteressada, que diz ao filho: “Tem comida lá na cozinha”. É necessário que ela ensine ao filho como deve servir-se, como deve alimentar-se etc. A igreja tem que levar o crente, por meio do ensino, à meditação na Palavra cujo resultado é o crescimento espiritual, social, moral, caminhando para a estatura de varão perfeito (Ef 4.13).

Pessoas há que ficam felizes porque já leram toda a Bíblia; entretanto, muitas dessas leituras não fizeram efeito.

Ao lado de uma leitura sequencial da Bíblia, é preciso que se faça constante leitura meditativa, analítica, estudiosa - à moda dos bereanos (At 17.11). Sobretudo, um trabalho em espírito de oração, a fim de que a racionalidade de Deus se revele ao espírito humano. “Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual; para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus;...” (Cl 1.9-10).

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