O
universo cristão ressente-se de compreensão mais clara, com relação ao sentido
de duas palavras que parecem operar em sentidos opostos. O amor ao próximo –
como recomendado por Jesus (Jo 15.17) – à primeira leitura, dá a impressão de
que se anula todo o senso de justiça. Por quê? Porque “justiça” expressa a
noção de dar a outrem aquilo que ele merece; conforme a lei de talião, ou lei
da reciprocidade: “olho por olho, dente por dente”.
Por
sua vez, a palavra amor, ágape,
carrega o sentido da não cobrança de um mal recebido. Pelo amor, se dará ao
devedor benefício maior do que aquele que ele “já não merece”.
Estamos
diante de um impasse? Temos que escolher o amor, para sermos cristãos
verdadeiros; ou a justiça, para sermos apontados como “julgadores do próximo”?
Há grande crítica relativamente a “julgar o próximo”, baseada em texto bíblico
extraído do contexto.
Deus
amou a toda a sua criação, quando “viu que tudo era muito bom”. Esse amor pode
ser inferido do texto em Gênesis 1.10, 12, 18, 21, 28, 31. Entretanto, o mesmo
Deus que se alegrara com a sua obra, decidiu tomar enérgicas providências de
justiça. Deus não atribuiu inocência aos culpados, mas aplicou neles a sua
justiça (Ez 18.20). Na oposição ao mandamento ou na desobediência, prevalece a
justiça, a fim de ser mantida a pureza do amor.
Não
há amor sem regras; a justiça opera para a preservação das regras, em favor do
amor (Mt 25.32; Ap 20.15).
Que
sentido fica melhor, em nosso contexto, para a palavra amor? Jesus disse que o
primeiro mandamento é amar profundamente a Deus, sobre todas as coisas, porque
ele é o nosso Senhor, único Senhor e nosso Deus (Mc 12.29-30). O que é esse “amar
a Deus”? Ora, evidentemente, o sentido
dessa passagem nada tem a ver com “gostar” ou “admirar”. Amar a Deus é
reconhecer-lhe, de coração, toda a soberania, majestade, glória e senhorio, com
toda a exclusividade da nossa adoração e louvor. O amor que se deve dedicar a
Deus está acima de qualquer outra possibilidade de amar.
“Amar
o próximo como a si mesmo” é o segundo mandamento (Mc 12.31) e Jesus diz que esse
mandamento é “semelhante ao primeiro”. Que quer isso dizer?
Primeiramente,
não quer dizer que o amor ao próximo e a mim mesmo se coloque no mesmo nível do
amor a Deus. A similitude está em ser atitude indispensável. Amar o próximo e a
mim mesmo deve ser entendido como um amor racional, disciplinado, justo,
todavia, que exceda a justiça própria. “Não julgueis segundo a aparência, mas
julgai segundo a reta justiça” (Jo 7.24). Esse julgamento condenado por Jesus
(segundo a aparência) revela-se na condescendência que, muitas vezes, temos
para com nós mesmos, com os nossos semelhantes, ou, até, na severidade aplicada
ao próximo.
O
segundo mandamento deve ser bem analisado, porque normalmente incorremos em
graves falhas de compreensão. Mal entendido, o amor ao próximo descamba para a
conivência, pela falta da justiça, da reta justiça, sobre nós mesmos e sobre os
nossos semelhantes.
Amor
não é conivência. O apóstolo Pedro diz: “... porque o amor cobrirá a multidão
de pecados” (1Pe 4.8). Por acaso, o apóstolo defende pecados encobertos, porque
amamos o pecador? Jamais! Pedro se esquecera do episódio, nos primeiros dias da
Igreja, envolvendo Ananias e Safira? Evidentemente, não! Que é, pois, “cobrir a
multidão de pecados”?
Vivemos
envolvidos num terrível mundo de pecados: desobediência ao evangelho de Cristo,
roubos, assaltos, violências em geral, inclusive deslizes menos perturbadores.
Nesse meio, o que é “amar o próximo” como a nós mesmos? O que é cobrir essa
multidão de pecados? Trata-se de uma árdua batalha: é espalhar o bem, por onde
atua o mal. Isso é cobrir uma multidão de pecados. É não praticar a lei de
talião, é não ignorar a necessidade de ser sal e luz na em nosso rude ambiente.
Daí,
que a partir de nós mesmos, não se pode falar em amor, em detrimento da
justiça, porque não há como dar a outrem o que não temos em relação a nós
mesmos. A justiça precede ao amor.
Amar
o próximo como a si mesmo é mostra-lhe que praticamos o bem em vez do mal, que
superamos a violência com a não violência, que evitamos o deslize. O amor evita
que a justiça seja uma regra fria, pontiaguda, em relação ao próximo. O amor
escapa à justiça, quando se torna exemplo do bom comportamento. Porém, o amor
não desfaz a validade da justiça, pois, se assim fizesse, assumiria a posição
de conivência com o erro. Portanto, a boa aplicação da justiça é um ato de
amor.
Quando
Deus aplicou a justiça no Éden, não sufocou o seu amor pela humanidade, mas
abriu a porta para o resgate. Quando destruiu a humanidade perversa com o
dilúvio, cuidou da preservação da criação, por meio de Noé. Sejamos justos, segundo a reta justiça,
primeiro para conosco, depois para com o próximo. Esse é o amor que cobrirá a
multidão de pecados.

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