domingo, 29 de dezembro de 2019

AMOR E JUSTIÇA, OU JUSTIÇA E AMOR?



O universo cristão ressente-se de compreensão mais clara, com relação ao sentido de duas palavras que parecem operar em sentidos opostos. O amor ao próximo – como recomendado por Jesus (Jo 15.17) – à primeira leitura, dá a impressão de que se anula todo o senso de justiça. Por quê? Porque “justiça” expressa a noção de dar a outrem aquilo que ele merece; conforme a lei de talião, ou lei da reciprocidade: “olho por olho, dente por dente”.
Por sua vez, a palavra amor, ágape, carrega o sentido da não cobrança de um mal recebido. Pelo amor, se dará ao devedor benefício maior do que aquele que ele “já não merece”.
Estamos diante de um impasse? Temos que escolher o amor, para sermos cristãos verdadeiros; ou a justiça, para sermos apontados como “julgadores do próximo”? Há grande crítica relativamente a “julgar o próximo”, baseada em texto bíblico extraído do contexto.
Deus amou a toda a sua criação, quando “viu que tudo era muito bom”. Esse amor pode ser inferido do texto em Gênesis 1.10, 12, 18, 21, 28, 31. Entretanto, o mesmo Deus que se alegrara com a sua obra, decidiu tomar enérgicas providências de justiça. Deus não atribuiu inocência aos culpados, mas aplicou neles a sua justiça (Ez 18.20). Na oposição ao mandamento ou na desobediência, prevalece a justiça, a fim de ser mantida a pureza do amor.
Não há amor sem regras; a justiça opera para a preservação das regras, em favor do amor (Mt 25.32; Ap 20.15).
Que sentido fica melhor, em nosso contexto, para a palavra amor? Jesus disse que o primeiro mandamento é amar profundamente a Deus, sobre todas as coisas, porque ele é o nosso Senhor, único Senhor e nosso Deus (Mc 12.29-30). O que é esse “amar a Deus”?  Ora, evidentemente, o sentido dessa passagem nada tem a ver com “gostar” ou “admirar”. Amar a Deus é reconhecer-lhe, de coração, toda a soberania, majestade, glória e senhorio, com toda a exclusividade da nossa adoração e louvor. O amor que se deve dedicar a Deus está acima de qualquer outra possibilidade de amar.
“Amar o próximo como a si mesmo” é o segundo mandamento (Mc 12.31) e Jesus diz que esse mandamento é “semelhante ao primeiro”. Que quer isso dizer?
Primeiramente, não quer dizer que o amor ao próximo e a mim mesmo se coloque no mesmo nível do amor a Deus. A similitude está em ser atitude indispensável. Amar o próximo e a mim mesmo deve ser entendido como um amor racional, disciplinado, justo, todavia, que exceda a justiça própria. “Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça” (Jo 7.24). Esse julgamento condenado por Jesus (segundo a aparência) revela-se na condescendência que, muitas vezes, temos para com nós mesmos, com os nossos semelhantes, ou, até, na severidade aplicada ao próximo.
O segundo mandamento deve ser bem analisado, porque normalmente incorremos em graves falhas de compreensão. Mal entendido, o amor ao próximo descamba para a conivência, pela falta da justiça, da reta justiça, sobre nós mesmos e sobre os nossos semelhantes.
Amor não é conivência. O apóstolo Pedro diz: “... porque o amor cobrirá a multidão de pecados” (1Pe 4.8). Por acaso, o apóstolo defende pecados encobertos, porque amamos o pecador? Jamais! Pedro se esquecera do episódio, nos primeiros dias da Igreja, envolvendo Ananias e Safira? Evidentemente, não! Que é, pois, “cobrir a multidão de pecados”?
Vivemos envolvidos num terrível mundo de pecados: desobediência ao evangelho de Cristo, roubos, assaltos, violências em geral, inclusive deslizes menos perturbadores. Nesse meio, o que é “amar o próximo” como a nós mesmos? O que é cobrir essa multidão de pecados? Trata-se de uma árdua batalha: é espalhar o bem, por onde atua o mal. Isso é cobrir uma multidão de pecados. É não praticar a lei de talião, é não ignorar a necessidade de ser sal e luz na em nosso rude ambiente.
Daí, que a partir de nós mesmos, não se pode falar em amor, em detrimento da justiça, porque não há como dar a outrem o que não temos em relação a nós mesmos. A justiça precede ao amor.
Amar o próximo como a si mesmo é mostra-lhe que praticamos o bem em vez do mal, que superamos a violência com a não violência, que evitamos o deslize. O amor evita que a justiça seja uma regra fria, pontiaguda, em relação ao próximo. O amor escapa à justiça, quando se torna exemplo do bom comportamento. Porém, o amor não desfaz a validade da justiça, pois, se assim fizesse, assumiria a posição de conivência com o erro. Portanto, a boa aplicação da justiça é um ato de amor.
Quando Deus aplicou a justiça no Éden, não sufocou o seu amor pela humanidade, mas abriu a porta para o resgate. Quando destruiu a humanidade perversa com o dilúvio, cuidou da preservação da criação, por meio de Noé.  Sejamos justos, segundo a reta justiça, primeiro para conosco, depois para com o próximo. Esse é o amor que cobrirá a multidão de pecados.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Translate:

Pesquisar este blog

• Arguivo do blog