Translate:

Pesquisar este blog

Receba as atualizações do blog em seu e-mail:

• Arguivo do blog

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

VOCÊ ENTENDE O QUE LÊ?

 


No livro dos Atos dos Apóstolos 8.26-38, Lucas relata uma ocorrência importante, envolvendo um ministro do reino da Etiópia, o qual viajava de Jerusalém para a sua terra, assentado em sua carruagem. Enquanto ele viajava, lia o livro do profeta Isaías.

Num dado trecho da viagem, surgiu na estrada, o diácono Filipe, o qual, inspirado pelo Espírito Santo, aproximou-se da carruagem. Filipe, então, perguntou ao viajante: “Você entende o que está lendo?” (v. 30). Dessa pergunta podemos tirar uma grande lição: “ler” não basta à pessoa; é necessário que ela entenda o que lê. Sim, é indispensável entender.

A maior parte da população brasileira, com alguma escolaridade, é apenas alfabetizada, e isso não a coloca entre os que são, de fato, “leitores”;, isto é, entre os que entendem o que leem. Pesquisas apontam um assustador percentual de analfabetos funcionais: pessoas que têm, no mínimo, o Ensino Médio, mas são incapazes de compreender o conteúdo de um texto simples!

A resposta do eunuco deveria ser constantemente repetida na igreja dos nossos dias. “Como poderei entender, se alguém não me ensinar?” (v. 31).

Talvez, essa seja a ocorrência mais inspiradora para o surgimento da Escola Bíblica Dominical, tão esquecida em nossos dias. O eunuco, além de reconhecer a sua necessidade de instrução bíblica, “rogou” (diz o texto) para que o diácono Filipe lhe ensinasse (v. 31). Que maravilha, se encontrássemos, em nossas igrejas, irmãos com tão grande interesse por ensino bíblico!

Tenho-me tornado insistente na observação de que a compreensão do texto requer, indispensavelmente, a leitura e a releitura (tantas quantas releituras necessárias). Bons textos sempre nos surpreendem com preciosidades.

Sem dúvida, a Bíblia é o mais precioso dos textos; suas riquezas ocultas são infindas, perenes. A Bíblia é a fonte inesgotável dos tesouros espirituais, mas também é a mais completa biblioteca de indispensáveis conteúdos semânticos e estilísticos.

Esses tesouros, porém, exigem trabalho contínuo e persistência daqueles que querem entender o que leem. Se você é um deles, siga o exemplo do eunuco de Candace, a rainha dos etíopes: procure ser aluno de uma Escola Dominical bem administrada e frequentador das reuniões de estudo bíblico, dadas por quem seja preparado para ajudá-lo. Filipe, tendo-se preparado, foi enviado pelo Espírito Santo para ensinar a Palavra de Deus, registrada em Isaías, o que levou aquele alto funcionário etíope à conversão e ao batismo em águas.

terça-feira, 17 de novembro de 2020

OBREIROS E TAREFAS


Leitura inicial:

“Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu e também do grego, porque nele se descobre a justiça de Deus, de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé” (Romanos 1.16).

Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele Dia. E não somente a mim; mas também a todos os que amarem a sua vinda”. (2 Tm 4.8).

 

Observação:

 “... o justo viverá da fé” nada tem com a manutenção desta vida. Tem a ver com viver um cristianismo alimentado pela fé em Jesus. “de fé em fé”, sem desistência, até o último dia.

Introdução

A Epístola aos Romanos é um dos textos que apresenta o apóstolo Paulo como alguém que tem grande disposição para anunciar, de modo ininterrupto o evangelho de Cristo; não só isso, mas também para fazer discípulos entre os evangelizados. Em Éfeso, o apóstolo diz: “Mas em nada tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira e o meu ministério, que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus” (At 20.24) Aos romanos diz não se envergonhar da Palavra de Deus, uma vez que a reconhece como poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê.

Paulo gastou o restante de sua vida, a partir da conversão, no trabalho da Obra do Mestre e, ao encerrá-la sente-se vitorioso, ao dizer a Timóteo: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desder agora a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz me dará naquele Dia, não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda” (2Tm 4.8).

Esse versículo faz o leitor atento perceber que o apóstolo encerra sua tarefa, despojado de qualquer vaidade pessoal. Quando se refere à coroa da justiça que o justo juiz lhe dará, não a tem como um prêmio particular, especial, específico para ele, pois declara: “não somente a mim, mas também a todos os que amarem a sua vinda”.

Que exemplo maravilhoso de verdadeira humildade e amor ao Senhor. Isso reafirma o que ele mesmo disse na carta aos Gálatas 2.20: “Já estou crucificado com Cristo, e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne, vivo-a, pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim”.

Agora, em seus últimos dias, transmite amorosamente a Timóteo, de modo particular, instruções que o fortaleçam no prosseguimento da obra do Senhor.

1.       O VALOR DO SIGNIFICADO DAS PALAVRAS

Constantemente usamos a expressão “obra do Senhor”; mas, na maioria das vezes, não temos em mente o significado nela contido. Um dos nossos problemas é, exatamente, o emprego de expressões que tornamos vazias de sentido, tanto para quem as usa como para quem as ouve, porque desperdiçamos uma imensidão de riquezas de significados nos nossos estudos, nas nossas pregações e nos nossos diálogos. É grande a frequência com que tornamos inúteis as palavras que proferimos sem nos deter no seu sentido.

2.       EMPREGO DA PALAVRA OBRA

Os gregos eram mais voltados para a intelectualidade do que os romanos. Roma preocupava-se mais com a praticidade das coisas; logo, as palavras do seu idioma, o latim, tendiam para essa praticidade. Assim, pelo latim, “obra” vem de “ópera”: basicamente, aquilo que se produz. Já os gregos, nascidos no berço da filosofia, eram mais preocupados com o raciocínio, por isso, as palavras assumiam valores mais abrangentes e, até, formas diferentes para cada significado – é o caso da palavra amor.

Do latim veio para o nosso vocabulário a palavra “obra” cujo sentido implica a noção de aplicar-se à execução de algo: construir um edifício, escrever um livro, produzir arte etc.

Escrito em grego, o N.T. emprega duas palavras para obra: práxis e ergon.

“Práxis” indica: modo de agir, aquilo que alguém pratica, como se lê em Mateus, 16.27b: “... então retribuirá, a cada um, conforme as suas obras”.

“Ergon”: se aplica ao sentido de se exercer um trabalho, empregar esforço (ergometria), ter comprometimento com uma tarefa, como se vê em 1Co 3.13: “A obra de cada um se manifestará, na verdade, o Dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta, e o fogo provará qual seja a obra de cada um”. Isto é o fogo provará a verdadeira intenção de cada um no comprometimento com a tarefa.

3.       O QUE É UM OBREIRO?

Nossa desatenção ao sentido das palavras, dentro de um contexto, pode nos conduzir a um estreitamento ou particularização do significado. As palavras não têm um sentido particular, porque sempre estão presas a um contexto. Imaginem a diferença de uso da palavra “porta”: “Ao sair, feche a porta da sala” e “Ao ouvir a palavra, não feche a porta do coração”.

Aqui, a palavra obreiro será vista no contexto do “ergon”, grego, no Novo Testamento, isto é, no sentido de alguém estar comprometido com uma tarefa no Reino de Deus. Dentro deste contexto, evidentemente, todo cristão é um obreiro, senão, deixa de ser verdadeiramente cristão.

O obreiro cristão é executor de uma tarefa que lhe é determinada por Deus. O Senhor Jesus deu uma determinação aos seus obreiros, isto é, aos membros da Igreja: “Portanto, ide; ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo...” (Mateus 28.19). Então, vejam como o estreitamento ou particularização do sentido de uma palavra é prejudicial. Na igreja costuma-se usar a palavra “obreiro” para designar o conjunto dos que servem nas tarefas ministeriais; assim, cria-se a categoria de obreiros e a de não obreiros! “O irmão é obreiro?” “Não, não sou; eu não participo das reuniões de obreiros”.

Essa particularização, sempre mal compreendida, muito prejudica a execução da obra do Mestre. Todos os salvos são obreiros do Senhor. Todos formamos um exército de soldados, sob o comando do nosso General!

Não há dúvida de que há uma hierarquia designada pelo próprio Senhor, para cumprimento do que ele mesmo determinou. Paulo transmite esse desígnio em Efésios 4.11-13. Mas todos quantos estão no Exército têm a sua função, sempre exercida em obediência à hierarquia.

As Assembleias de Deus deixaram bem marcada a má influência, por causa do sentido errado que dão à palavra obreiro. Essa má influência persiste até os dias atuais. Os hinos da nossa Harpa Cristã: 132, 409 e 433 são a principal marca dessa separação entre os chamados obreiros e os chamados membros. Seria bom corrigir essa falha terrível que põe acomodada nos bancos do templo uma grande quantidade de “soldados do Reino”.

4.       TIMÓTEO, UM OBREIRO FORMADO POR PAULO

Outro grave problema, muito encontrado na igreja atual, é a existência de obreiros sem formação, ou mal formados. Não há dúvida de que obreiros mal formados são fruto de igreja mal formada doutrinariamente.

Quero entender, aqui, obreiro como cristão em geral; pois, o obreiro que exerce ofício no ministério esteve antes nos bancos da igreja. Como já disse, a igreja se pauta por uma hierarquia instituída pelo Senhor, por isso, há os vocacionados pelo Senhor, para tarefas específicas “E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo, para a obra a que os tenho chamado”. (At 13.2). Esses vocacionados devem receber preparo específico, além do preparo geral. Na Bíblia, além de muitos exemplos bem claros, tanto no AT, como no NT, há instrução sobre esse assunto.

O apóstolo Paulo mostrou grande interesse na instrução e formação de dois pastores: Timóteo, que estava em Éfeso, e Tito, que estava em Creta.

Paulo chegara preso a Roma, mas obteve a permissão de morar em seu próprio domicílio, vigiado por um soldado. Hoje, ele usaria uma tornozeleira. Nesse tempo, durante dois anos, na casa que alugara ele pregou a palavra. Libertado, pregou na Espanha e retornou à região da de Creta, Macedônia e Grécia, onde deu prosseguimento ao seu ministério. Nessa época, escreveu a primeira carta a Timóteo. A segunda carta foi escrita da prisão, pouco antes de sua condenação à morte.

Lendo essa Primeira Epístola, vemos o interesse do apóstolo na total formação do obreiro Timóteo, quando tratou de assuntos como o jovem pastor deveria conduzir a vida ministerial e pessoal, como deveria defender a pureza do evangelho, como se preparar para o enfrentamento da corrupção teológica trazida pelos falsos mestres e demais assuntos relativos à condução da obra entre os Efésios.

Na próxima aula iniciaremos uma apreciação específica sobre essa Primeira Epístola a Timóteo. Convém que você dedique, no decorrer desta semana, tempo para oração e para uma leitura antecipada dos seis capítulos que compõem essa Epístola. Amém.

  

terça-feira, 27 de outubro de 2020

ANTES DA CONDENAÇÃO, A ANÁLISE CORRETA

 


Quanto mais francos pretendemos nos apresentar, mais amamos a literalidade. Podem verificar que boa parte das pessoas, conscientemente ou não, aprecia usar o advérbio literalmente, mesmo que ele não caiba no contexto. Fica chique!

O que pode ser literal encanta-nos, talvez, por causa da fácil digestão cognitiva. O figurado, o expressivo, o conotativo fica-nos num plano menos atraente, porque nos arranca do conforto mental, a fim de que compreendamos o que está por detrás do muro das palavras. Esse fenômeno do comodismo não se dá como exclusividade de um ou outro texto, é fato recorrente, portanto, envolve, também, a compreensão do texto sagrado: A Bíblia, Sagrada Escritura. Muito da Bíblia, de fato, não é literal, exceto, obviamente, os relatos históricos, dentro dessa perspectiva.

Nenhum leitor cristão pode fugir ao conhecimento de que Jesus Cristo, nosso Senhor, deu preferência à conotação, à linguagem figurada, quando usou inúmeras parábolas. E sempre houve quem não o compreendesse. Jesus opunha-se à preguiça mental.

“Os discípulos aproximaram-se dele e perguntaram: ‘Por que falas ao povo por parábolas?’. Ele respondeu: ‘A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não. A quem tem será dado, e este terá em grande quantidade. De quem não tem, até o que tem lhe será tirado. Por esta razão lhes falo por parábola; porque vendo eles não veem e, ouvindo, não ouvem, nem entendem” (Mt 13.10-13 – destaque meu).

Quando Jesus se refere ao que “é dado” e ao que “é tirado”, não se refere a coisas materiais, mas à compreensão daquilo que é dito. Quem compreende “ganha” conhecimento; quem não compreende “perde” conhecimento.

A parábola do Semeador não foi a primeira nem a única parábola do Mestre; por isso, convenço-me de que um dos grandes propósitos do Senhor Jesus foi levar os homens a raciocinar, sua intenção deve ter sido arrancá-los do comodismo mental e das coisas explícitas. Seria, hoje, outra a vontade do Senhor para com aqueles que buscam com verdadeiro coração compreender a sua Palavra e o que se diz com respeito a ela? Creio que não!

Ao nos dedicarmos ao estudo e compreensão da Sagrada Escritura, devemos ter em mente que o Senhor quer que o nosso raciocínio – e não só a nossa emoção – esteja ativo, para que o Espírito Santo nos conduza na busca e aquisição das maravilhas que há no texto sagrado, seja para o nosso próprio alimento espiritual, seja para servirmos aos circunstantes.

Que leitura fazemos dos discursos que nos chegam, vindos daqueles que têm o ministério santo de edificar a Igreja? Usarão todos os oradores uma linguagem absolutamente explícita? Evidentemente não! A linguagem figurada está arraigada na expressão do todo ser humano, independentemente da sua formação escolar. As metáforas mais belas saem da boca do povo sem escolaridade! Mas voltemos aos discursos de natureza teológica.

O púlpito produz muito discurso que, para ser eficaz, exige do ouvinte a habilidade da compreensão. Assim, se elaborado sem o devido cuidado - a que público se dirige, como trata o assunto, que resultado pretende etc. – será pivô de muitos problemas e de infindas discussões. Volto a insistir nas parábolas de Jesus ao povo: para homens do campo, abordava estórias campesinas; para os fariseus, adotava outro aspecto, para o homem urbano, estórias do dia a dia citadino.

Agora, estamos diante de uma grande discussão sobre os discursos do pastor Ed René Kivitz, da Igreja Batista de Água Branca. Aqui, pretendo observar, por alto, o conteúdo embutido na construção de uma de suas mensagens, da qual se diz que o reverendo informa ser a Bíblia um livro que precisa ser atualizado, um livro cujos assuntos já não cabem na sociedade atual. Terá o pastor René se tornado um companheiro da ideologia do Papa Francisco?

É necessário que se faça uma verificação mais aprofundada, antes de o chamarmos herege, apenas com base numa leitura superficial. Claro, pode ser que o pastor esteja num caminho errado; mas pode ser que nós tenhamos lido mal o seu discurso.

Vejamos um pequeno trecho de um vídeo dele sobre o assunto:

“... Então, a gente precisa atualizar a Bíblia, porque se eu não atualizo a Bíblia, e se eu leio literalmente e digo: ‘Está suficiente a leitura literal da Escritura, eu legitimo a escravidão...’. Bem, é impossível tomar por base para compreensão desse discurso, apenas esse ou outro pequeno fragmento, ou, ainda, um conjunto de fragmentos dele. É necessário que nos debrucemos sobre todo o texto, para quem e em que circunstâncias foi dirigido o discurso. Somente assim haverá argumento que o apoie ou o refute.

Entenda o leitor que, neste momento, não estabeleço qualquer juízo de valor sobre o pregador, pois, falta-me melhor análise. Esse é justamente o interesse desta página: levar o leitor a não cometer injustiça por meio de uma avaliação, talvez deformada, trazida pela emoção de uma leitura apressada, que despreze contextos; ou com base em uma leitura incompleta, que faça alguém sair a campo como um Dom Quixote.

Portanto, antes da condenação, antes da concordância com os açoites sem análise, convido a que meditemos na maleabilidade semântica de que se possa valer um orador. Essa é a razão por que não condeno, nem absolvo o referido pastor, até que eu tenha a boa oportunidade de fazer uma avaliação adequada. Espero, pois, que o meu leitor me acompanhe.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

O AMOR COBRE PECADOS; NÃO OS ENCOBRE

 O AMOR COBRE PECADOS; NÃO OS ENCOBRE

Houve um tempo, quando a religião dominante na Europa colocava todos os leigos – os que não labutavam na esfera eclesiástica - na categoria de indoutos; sobretudo, porque receava contestação aos seus dogmas. Ler a Bíblia Sagrada era atividade taxativamente proibida, estudá-la teologicamente era candidatar-se à fogueira. Sabia-se que o estudo das Escrituras era exclusividade do seleto clero romano. Fazia parte desse contexto assegurar a própria hegemonia; por isso, o clero nunca fez questão de patrocinar acesso ao saber, exceto aos que lhe eram convenientes. Para a massa, bastava o que se queria servir.

Todavia, a História Geral está à disposição de quem quiser inteirar-se daquele tempo. Os frutos, porém, estenderam-se século após século, e não há dúvida de que parte de nós vive no mundo intelectualizado, e parte de nós vive no mundo inculto, sendo que neste há muito mais indivíduos do que naquele. Aí está, acredito, a causa do grande percentual da má aplicação dos textos bíblicos, sem deixar de considerar a existência da má-fé.

Isso posto, gostaria de meditar sobre uma frase corriqueira no meio evangélico: “o amor cobre uma multidão de pecados”. À primeira vista a impressão é de incoerência, exatamente, porque o amor representa a virtude, mas o pecado, o defeito. Vejamos fragmentos bíblicos sobre isso:

“O ódio excita contendas; mas o amor cobre todas as transgressões” (Pv 10.12).

“Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador salvará da morte uma alma e cobrirá uma multidão de pecados” (Tg 5.20).

“Mas, sobretudo, tende ardente caridade uns para com os outros, porque a caridade cobrirá a multidão de pecados” (1Pe 4.8).

O salmista diz:

“Bem- aventurado aquele cuja transgressão é perdoada, e cujo pecado é coberto” (Sl 32.1).

O primeiro passo para a compreensão dessas passagens é perceber que as palavras não são proprietárias de seu significado; elas são signos linguísticos: elementos constituídos de significante (parte material, visível) e significado (conceito, imagem mental provocada). Ao falante é dada certa liberdade para a escolha dos signos com que construirá a sua mensagem.

Analisemos os versículos citados, começando por Provérbios 10.12:

A sentença “... o amor cobre todas as transgressões.” Não pode ser isolada do contexto em que está a anterior: “O ódio excita contendas;...”. Há um jogo entre o que o ódio produz e o que o amor produz. Enquanto o ódio provoca a ira, incendeia a contenda, o amor possibilita a paz, desfaz a confusão encerra o problema, ou seja, evita que as transgressões se desenvolvam. O amor põe um freio no prosseguimento das transgressões. Logo, não se pode entender que o amor sirva para alguém acobertar transgressões.

Vamos ao segundo caso, marcado em Tiago 5.20:

“Saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador salvará da morte uma alma e cobrirá uma multidão de pecados”. Vamos partir de uma constatação expressa no evangelho de Mateus e em Isaías: “E ela dará â luz um filho, e lhe porás o nome de JESUS, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1.21). “E não há outro Deus, senão eu; Deus justo e Salvador, não há outro fora de mim” (Is 45.21). Quem pode salvar? Somente o Senhor. Entretanto, Tiago usa uma forma de linguagem que parece atribuir ao homem tal poder. Não o faz. É simplesmente força de expressão; o homem não salva o seu companheiro, mas pode servir de instrumento para que Deus salve. Aliás, quem anuncia o evangelho é instrumento de salvação, não o agente dela.

Quanto a cobrir uma multidão de pecados, o sentido do verbo cobrir é o mesmo do caso anterior, visto em Provérbios. Trata-se de alguém ser instrumento de Deus, como atalaia, para impedir ao pecador a continuidade da vida pecaminosa, exatamente como fez Jonas, em Nínive.

Terceiro ponto, a citação de 1Pedro 4.8:

“Mas, sobretudo, tende ardente caridade uns para com os outros, porque a caridade cobrirá a multidão de pecados” (1Pe 4.8). Evidentemente o apóstolo Pedro não está sugerindo que haja tal amor que esconda a multidão de pecados uns dos outros. Na verdade, aí está retomado o

mesmo significado já visto; a caridade ou o amor ardente entre os irmãos produz reparo, correção capaz de estancar qualquer possibilidade de que a multidão de pecados continue em crescimento deletério. A caridade entre os irmãos traz orientação sobre o poder do sangue de Jesus para cobrir, isto é, apagar a vigência dos pecados. O apóstolo do amor, João, ensina que o mentiroso diz que não peca. “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Se confessarmos os nossos pecados ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça” (1Jo 1.8-9).

“Mas, se andarmos na luz, como ele na luz está, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1Jo 1.7) O sangue de Jesus Cristo cobre multidões de pecados. Amém

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Hinos: louvores, adoração, oração e convites.


Hino é uma composição poética e musical, destinada à honra devida a Deus. Neste caso, a composição se coloca na categoria de hino sacro e, dependendo do propósito, pode constituir um louvor ou glorificação, uma adoração, expressar uma oração ou súplica e, ainda um convite evangelístico.
O hino que, no âmbito secular, expressa as glórias de uma nação, de um herói, de um partido político ou de um clube esportivo, classifica como hino profano. Aqui, a palavra profano não tem sentido pejorativo, é, apenas, antônima de sacro.
No âmbito da hinologia sacra, é necessário distinguir o conceito de louvor, de adoração, de oração ou súplica e de convite evangelístico.
a) Hino de louvor ou de glorificação
O hino de louvor ou de glorificação caracteriza-se pela intenção de glorificar o poderio do Senhor e as suas obras. Louvamos a Deus pelo que ele faz. A maioria dos Salmos constituem hinos de louvor. “Do Senhor é a terra e a sua plenitude, o mundo e aqueles que nele habitam; porque ele a fundou sobre os mares e a firmou sobre os rios...” (Sl 24.1). “Louvai ao Senhor e invocai o seu nome; fazei conhecidas as suas obras entre os povos. Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; falai de todas as suas maravilhas” (Sl 105.1). Alguns hinos de louvor compõem a Harpa Cristã.
b) Hino de adoração
A palavra adoração expressa o ato de adorar (do grego proskuneo). No original, significa prostrar-se em reverência. No hino de adoração, o crente se prostra física ou intelectualmente diante da majestade indescritível de Deus. O hino de adoração procura reverenciar a Deus por Quem Ele é. Nos Salmos também há hinos de adoração. “Daí ao Senhor ó filhos dos poderosos, daí ao Senhor glória e força. Daí ao Senhor a glória devida ao seu nome; adorai o Senhor, na beleza da sua santidade. A voz do Senhor ouve-se sobre as águas; o Deus da glória troveja; o Senhor está sobre as muitas águas. A voz do Senhor é poderosa; a voz do Senhor é cheia de majestade” (Sl 29. 1-4). Há hinos de adoração na Harpa Cristã.
c) Hino de oração ou súplica
Quando se entoa um hino sacro, de forma particular ou pública, é indispensável ter-se a consciência do que se canta. Aliás, este ponto é crucial na maioria dos cânticos congregacionais: a consciência do culto a Deus. Nem sempre a oração é feita nos cultos exclusivos para esse fim, ou ajoelhados em casa. A oração também se faz por meio do canto poético. O Salmo 5, expressa uma oração de súplica a Deus: “Dá ouvidos às minhas palavras, ó Senhor; atende à minha meditação. Atende à voz do meu clamor, Rei meu e Deus meu, pois a ti orarei” (Sl 5.1) O hinário oficial das Assembleias de Deus, a Harpa cristã, contém alguns hinos de oração ou súplica.
d) Hino de convite evangelístico
A Igreja Assembleia de Deus sempre teve preocupação com os trabalhos missionários de evangelismo local, nacional ou internacional. Por essa razão, a grande quantidade de hinos de convite nela contidos, tais como os seguintes: 46, 65, 69, 96, entre tantos outros.
No âmbito da hinologia profana, destacam-se os hinos pátrios (Hinos Nacionais), os hinos militares e os hinos do esporte. Aqui, só nos detivemos, rapidamente, na hinologia sacra.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Esdras, um pastor devotado ao concerto


Introdução
Costumes são hábitos que, quanto mais antigos, menos afetam aqueles que os mantêm. Acontece que, além dos costumes inócuos, há os bons e os maus costumes. Inócuos são os costumes que não afetam as circunstâncias nem os ambientes em que se praticam. Por exemplo, há quem tenha o hábito, ou costume, de dormir logo que anoitece; outros preferem recolher-se bem tarde. São costumes inócuos. Agora, imagine-se o costume de alguém ouvir rádio, com som alto, às seis da manhã de um domingo!
Agora, lembrado o que são costumes, vamos tratá-los na perspectiva das nossas atividades cristãs, que também podem ser chamadas de religiosas. As igrejas e os cultos evangélicos têm sido celeiros de costumes e, evidentemente, se não são maus - dada a natureza deles -, muitos também não são totalmente sadios ou inócuos. Um desses costumes criticáveis é o de que somente se dá atenção a um problema, depois que ele acontece. Aliás, isso parece ser índole do povo brasileiro. Na hora do curto circuito é que se corre para trocar a fiação.
Fala-se muito, hoje, de igrejas que não alcançam um bom resultado em suas tarefas de expandir o reino de Deus. Geralmente, esses maus resultados vêm-se prolongando e se aprofundando, durante anos; mas, somente quando a situação é gravíssima, dá-se a atenção. Por que se chega a tal ponto? Porque o costume traz o comodismo e impede a percepção do processo deletério.
Paralelamente a isso, cultiva-se, nas mesmas igrejas, o costume de nunca se analisarem as práticas litúrgicas, com apoio na afirmação desgastada do “sempre fizemos assim”, “essa é a nossa tradição”. Mas está bem aí, na maioria dos casos, o problema. O costume, ou a tradição não analisados, servem de entrave ao crescimento da membresia; e, muito pior, entravam o amadurecimento espiritual da igreja.
É necessário sacudir as toalhas empoeiradas da tradição, considerando que a Palavra de Deus
“é viva e eficaz, mais penetrante do que espada alguma de dois gumes”, como diz o autor da epístola aos Hebreus. Por ser viva, a palavra é eficaz, por ser eficaz é penetrante; logo, sendo viva, eficaz e penetrante, é dinâmica; não é inerte, costumeira, antiquada e sonolenta.
Crentes, mas mergulhados em maus hábitos
Os muros e a cidade de Jerusalém estavam relegados a uma profunda desolação. Tudo havia sido destruído, uma parte dos judeus ainda estava em Babilônia, no cativeiro. Grande parte dos que retornaram, após 70 anos como exilados de sua pátria, haviam adquirido os maus costumes babilônicos, não se importavam com a mistura - nem com a miscigenação - com outros povos, embora se considerassem religiosamente judeus.
 Quantos crentes estão como aqueles remanescentes, mergulhados nos maus costumes do mundo, mas adeptos da igreja? Chegados a sua terra, os remanescentes hebreus puseram-se a reconstruir o altar e colocaram os alicerces do templo, mas não tiveram força para prosseguir na tarefa, devido às perseguições. Encorajados pelos profetas, reiniciaram as obras, com muitas dificuldades, e terminaram a tarefa, mas isso era tão somente obra material, encobrindo uma espiritualidade morta sob o peso dos costumes mundanos dos descrentes.
Um templo reconstruído e um povo em pecado
Esdras, vindo da Babilônia, para Jerusalém, encontrou sérios problemas entre o povo. Ainda que eles tivessem o templo construído e consagrado (Ed 6.16), estavam mal doutrinados e em pecado.
Quantos dos nossos belos templos congregam gente que desagrada a Deus? Quantos precisam do aparecimento de um Esdras, para trazer-lhes ensino e correção?
As ovelhas que andam errantes, sem pastor, tornam-se facilmente presas do predador. A Bíblia diz que o diabo anda em derredor dos crentes que margeiam o aprisco, buscando a quem possa tragar (1Pe 5.8). A verdade desse verbo (tragar) põe às claras uma das mais perfeitas ciladas de um inimigo que não pretende mostrar as garras; por isso, não aparece com chifres e tridente, mas se aproxima com seu baú de atraentes, mas falsas, propostas. Paulo declara que nós não ignoramos os ardis do inimigo (2Co 2.11).
Um pastor dedicado lamenta os erros do seu povo
Quando Esdras chegou da Babilônia, foi informado da péssima situação espiritual do povo de Israel e ficou profundamente triste com o que soube. É necessário que muito nos entristeçamos com uma igreja em decadência.
“E, ouvindo eu tal coisa, rasguei a minha veste e o meu manto, e arranquei os cabelos da minha cabeça e da minha barba, e me assentei atônito” (Ed 9.3).
Diante de desmandos e pecados do povo de Deus, quantos líderes da atualidade têm tamanha preocupação? Quantos ficam atônitos por causa dos erros que vêm ao seu conhecimento? Esdras se pôs de joelhos, em oração sincera, manifestou-se confuso e envergonhado, como se sentindo faltoso para com o seu dever de orientar. Disse ele:
“... Meu Deus, estou confuso e envergonhado para levantar a ti a minha face, meu Deus, porque as nossas iniquidades se multiplicaram sobre a nossa cabeça e a nossa culpa tem crescido até aos céus” (9.6).
Um povo desgarrado do Senhor precisa com urgência de líderes como Esdras. Na Carta aos Efésios, o apóstolo diz que o Senhor mesmo deu à igreja líderes, “querendo o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério, para a edificação do corpo de Cristo” (Ef 4.12).
A necessidade de discípulos obedientes à palavra de Deus
Se, por um lado, é necessário haver líderes responsáveis pela boa conduta do povo, não é menos necessário que haja um povo disposto ao amadurecimento espiritual e à correção dos seus maus caminhos.
Sem essa parceria, nenhuma igreja progride. Existem pastores de ovelhas ruins; estes se desgastam em preocupação, ensino, correção, ano após ano, mas não veem resultado do trabalho. A causa? Ovelhas desobedientes à Palavra, “crentes” que se tornam ouvintes desatentos, acostumados ao pecado, murmuradores, divisores do rebanho, maldizentes.
O líder Josué enfrentou essa situação; diante disso, ele não ficou gastando sermões infrutíferos; mas reuniu o povo e mandou que eles escolhessem a quem queriam servir. Isto quer dizer que Josué se desincumbiu da responsabilidade sobre eles, caso não seguissem ao Senhor.
Não é mais tempo de se insistir com as más ovelhas; a Bíblia ensina que os maus crentes devem ser chamados uma e duas vezes, caso não se corrijam, devem ser tratados como gentios e publicanos (Mt 18.17), porque deixaram de ser filhos de Deus em Cristo, segundo a doutrina. Não se divide aprisco de ovelhas com manada de lobos.
Jesus não fez questão de que incrédulos à sua mensagem estivessem ao redor dele.
Conclusão
O mundo cristão atual precisa retomar com seriedade o conteúdo da Palavra de Deus. As igrejas têm que voltar ao estudo e à aprendizagem correta da Palavra de Deus. Nossos líderes precisam adquirir um coração como o de Esdras (Ed 9.6-7), uma autoridade como a de Josué (Js 24.15) e uma conduta como a de Paulo, que diz não se envergonhar do evangelho (Rm 1.16).
Nossos cultos devem ser analisados à luz da Bíblia, para que abandonemos as práticas infrutíferas, costumeiras e respaldadas nas ideias do “sempre fizemos assim”. É tempo de sacudir as toalhas empoeiradas dos costumes que para nada servem. É tempo de olhar para adiante; não para o que atrás fica (Fp 3.13-14).
É tempo de renovação, e isso tem que partir de nós. A recomendação paulina é que a igreja não se conforme ao mundo, mas que haja uma mudança, uma transformação pela renovação do nosso entendimento, a fim de que possamos experimentar qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus (Rm 12.2). Amém.